20.7.08

o avassalador orgão público (parte 18 e meio)

Porque deveríamos confiar no Ministério da Cultura?
Se não podemos confiar no nosso país.
Se não podemos confiar.
Se não podemos.
Se não.
Se.

Esperançosa. Eu. Como já repeti algumas vezes. No dia 28 de fevereiro. Deixei o projeto do Quixote nas mãos de uma simpática mocinha na cinemateca.

Hoje. Dia 20 de julho. Constato: em quase cinco meses, eles não se deram ao trabalho de ler nosso projeto. Como assim? Explico.

Depois de toda aquela novela de documentos. Depois da não-análise da reunião do mês passado. Me deparo como o resultado da reunião deste mês:

Projeto retirado da pauta : Apresentação do responsável pela livre adaptação ou tradução do texto e a devida documentação de liberação dos direitos autorais.

Assim. Todos que lêem esse blog sabem. O espetáculo "Quixote'', não tem texto. É uma livre adaptação da obra original que por sinal, escrita em 1615, pelo saudoso Miguel de Cervantes, já é domínio público há pelo menos 350 anos.

O Sr. Rouanet hoje me fez duvidar de mim mesma. Fui buscar o projeto e ver se por engano eu havia esquecido de mencionar que o espetáculo era de imagens e ação física. Às vezes. Por ventura. Eu poderia ter me esquecido da proposta de linguagem do meu grupo. Vai saber.

Gostaria até. Aliás. Peço humildemente que analisem minhas palavras. Pra ver se realmente não dá apra enteder do que se trata o espetáculo.

Fielmente reproduzo o que está escrito, rubricado e datado no projeto:

FORMULÁRIO MECENATO
FOLHA 2 - JUSTIFICATIVA

A realização do espetáculo “Quixote” trará a tona um processo de criação baseado na apropriação de uma obra para a posterior leitura pessoal e única desta, como exemplo de um tratamento onde o resultado não é uma adaptação do original. O espetáculo pretende criar um discurso cênico inspirado na obra de Miguel de Cervantes, onde as personagens centrais são encaradas como arquétipos humanos, em situações que antes de se obrigarem a resumir ou adaptar o romance, reconstroem simbolicamente a trajetória de sonho, utopia e superação, o desejo de vencer as barreiras que a realidade impõe para transformá-la, trazendo, quem sabe, um pouco de sagrado à vida.

O Dom Quixote de Cervantes se dá a liberdade de olhar o mundo com outros olhos, de enxergar aquilo que nos é posto como definitivo de uma maneira transgressora, pois acredita naquilo que já não cremos mais: a transformação. E o sonho é o que pode haver de mais sagrado. É ele que nos redime da “obrigação” de sermos perfeitos, que nos inscreve na categoria dos “anti-heróis”: imperfeitos, patéticos às vezes, cheios de falhas e desejos impossíveis. Descemos da esfera dos seres superiores e descobrimos a coragem de revelar o que existe de mais humano: nossas imperfeições, medos, angústias, paixões... O “anti-herói” é o herói que se trai, que revela seu lado fraco, que muitas vezes é humilhado, massacrado, mas que defende o direito sagrado de crer que o mundo pode – ou ao menos deveria – ser diferente. E é bonito ver o herói se traindo. Porque é humano. E antes de mais nada, entendemos a obra de Cervantes como uma profissão de fé na humanidade.

Assim sendo, pensamos em um tratamento para o espetáculo que possa trazer uma atmosfera de fábula, uma criação livre da metáfora do que essa figura significa, em um processo colaborativo entre direção e elenco. Para valorizar a universalidade da obra e sua leitura simbólica, a opção é investir nos dados imagético e sonoro, sem o uso de texto: o elemento verbal, riquíssimo no original, é aqui traduzido em imagens que a nosso ver possibilitam leituras diversas e menos eruditas dos conflitos e temas evocados, tornando o espetáculo mais sensorial e menos logocêntrico. Dom Quixote é um exemplo de arquétipo literário no Ocidente – mesmo aqueles que nunca leram a obra de Cervantes possuem um entendimento do que esta figura representa. Quixote é praticamente a personificação da ruptura com padrões sociais vigentes, da crença nos ideais, na transgressão mais pura. Em meio a uma realidade que oprime e sufoca, o reencontro com nossa humanidade perdida é o que de mais contundente pode haver. Especialmente se este encontro se der através de uma linguagem despretensiosa, singela e onírica.

Acreditamos que o público poderá ter acesso a uma visão menos erudita de um clássico, que aproxima por colocar em primeiro plano seu entendimento mais essencial, deslocando o foco do elemento verbal e reorientando-o para o sensorial – consequentemente, tornando o poder de comunicação do espetáculo muito maior. Tendo em vista que o tratamento pensado possibilita a um só tempo uma elaboração estética e um discurso sinestésico que desobriga a platéia de referências prévias ou erudição, o público alvo potencial engloba tanto o universo específico, como interessados em teatro, como alunos da rede pública que terão a oportunidade de perceber como uma obra clássica pode ser entendida e assimilada, no que possui de fundamental, de uma forma menos ortodoxa e racional e mais poética e simbólica.

Agora me digam. Um espetáculo sem texto. Baseado no original. Deve pedir direito autoral pra quem?

E reitero que isto não tem o menos cabimento visto que, sendo a obra de domínio público, mesmo que tivesse algum texto na peça. Está descrito acima que a adaptção é do diretor e dos atores.

Eu, Aline Baba, libero a adaptação feita por mim mesma do meu próprio espetáculo.

Fui procurar alguma cláusula nova no projeto, já que cinco meses se foram... infelizmente. Porque alguma justificativa havia de ter. Encontrei as seguintes exigências que não existiam quando eu fui lá, naquele 28 de fevereiro de 2008...saudoso:

- Documentos comprobatórios de autoria/titularidade da obra quando se tratar de utilização de obra própria - com firma reconhecida. --- Não, a obra do Cervantes não é minha, o nosso espetáculo é próprio, mas baseado nela, e não temos um texto, só um roteiro de cenas, para comprovar, já que TEATRO NÃO É SÓ PALAVRA.

-Tradução juramentada, com cópia autenticada, para a utilização textos originais redigidos em outra língua. --- Essa cláusula por motivos óbvios, não me diz respeito.

Faço aqui uma enquete:
1) O Sr. Rouanet não leu direito meu projeto.
2) Eles não tem uma cláusula para espetáculos sem texto e não sabem o que fazer.
3) Eles realmente não se importam.

Seu Rouanet. Eu não quero mais você.

3 comentários:

T. M. disse...

porque se eles realmente não se importam comigo, eu não tenho porque me importar com eles.
Eu realmente não me importo.

Aprendam a ler.

Thiago disse...

Alternativa número 3.
Ganhou!

P.S. Temos como saber quem vai conseguir ter o projeto aprovado?

Caio Marinho disse...

3!

 
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